Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Janeiro, 2010

A sangue frio – Truman Capote, Companhia das Letras, 440 páginas, 2003.

Sobre uma nota de apenas duas linhas no jornal “The new york times”, o jornalista Truman Capote escreveu uma obra-prima do jornalismo literário. Leu sobre uma família que havia sido assassinada brutalmente no interior do Kansas (Texas, EUA) e, a partir disso, achou que daria uma boa matéria. Seguiu com suas malas até a cidade em companhia da amiga escritora Harper Lee (autora do livro “O sol é para todos”). Ao chegar ao local do crime, conversou com vizinhos, conhecidos e familiares e percebeu que aquela história daria bem mais que uma reportagem. Desde então começou-se uma das apurações mais profundas da história do jornalismo estadunidense.

O livro registra a história dos quatro membros da família Clutter, o Sr. E Sra. Clutter e seus dois filhos, Kenyon e Nancy. Paralelamente, apresenta os dois assassinos, Perry Smith e Dick Hickcock. Capote reproduz fielmente as cenas e traz detalhes minuciosos que comprovam a grande pesquisa feita pelo escritor. Desde uma descrição detalhada da cidade e da população, até dos próprios “personagens” envolvidos, revelando informações íntimas, que dificilmente se conseguiria sem uma consulta a própria pessoa.

“A tatuagem de um rosto de gato, azul e sorridente, cobria sua mão direita; em seu ombro, florescia uma rosa azul. Mais tatuagens, desenhadas e executadas por ele próprio, ornamentavam seus braços e seu tronco; a cabeça de um dragão com uma caveira humana entre as mandíbulas abertas; mulheres nuas de seios fartos; um diabinho brandindo um tridente; a palavra PAZ acompanhada por uma cruz que irradiava, na forma de traços irregulares, raios de luz sagrada; e duas criações sentimentais – a primeira um buquê de flores dedicado a MAMÃE-PAPAI, a outra um coração que celebrava o romance entre DICK e CAROL, a moça com quem se casara aos 19 anos…” O trecho descreve as tatuagens no corpor de Dick, um dos assassinos. Além disso, revela o cuidado de Capote aos detalhes, ao mesmo tempo que confirma a boa percepção de um jornalista literário.

Em 6 anos de apuração, Capote reuniu tantos dados, que poderia ter escrito um livro de até 2 mil páginas. Se julgava genial por ter escrito essa obra e, com razão, fez de seus “exageros”, uma realidade. Seu livro seria adotado por ele como “non-fiction novel”, ou simplesmente “romance sem ficção”. Entre muitos outros que surgiram anteriormente, esse certamente causou bastante alarde sobre a população, sendo campeão de crítica e venda quando lançado em 1966. Capote iniciou o que hoje se chama de “new journalism”, introduziu o jornalismo a literatura e trouxe um estilo novo de romance não-ficcional. Além dessas heranças, o escritor fez nascer a paixão em milhares de estudantes que sonham em unir o literário ao jornalismo e aprimorar a arte de contar histórias da vida real.

Read Full Post »