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A arte de ontem vista com olhos de hoje

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Por Isabella Corrêa e Sílvia Mendonça

Se dezenas de pessoas respondessem o que é arte hoje, pelo menos boa parte responderia com argumentos usados nos movimentos modernistas da década de XX. A cultura que vemos hoje teve influência direta com os movimentos de vanguarda. “O modernismo abriu o leque de possibilidades criativas, possibilitou a quebra de uma rigidez que existia até então no mundo das artes”, afirma Marisa Mendonça (21), estudante de cinema e artes plásticas.

A pintura, a literatura e a música trouxeram pensadores do moderno para exercerem funções drásticas de racionalização nos cidadãos, fazê-los pensar o que é arte. “O grande valor da arte, seja ela qual for, é gerar um pensamento”, disse certa vez o artista plástico Nelson Felix.  Hoje é cultuada uma cultura de âmbito industrial, o que faz gerar o questionamento sobre o verdadeiro valor da arte sobre os olhos de cada pessoa. “O modernismo nada mais foi do que uma grande ‘afrouxada’ nas amarras que possuíamos em relação a arte, toda aquela pompa, eixo, proporção, motivo, principalmente a arte europeia, da antiga escola, do mundo velho e todo aquele padrão, tanto estético como artístico”, definiu a artista plástica Louise de Londres (23).

O modernismo foi mal recebido e criticado pelas sociedades do século XX, viria a ser prova de que estas não estavam preparadas para transformações. “A diversidade de opiniões acerca de uma obra de arte evidencia que essa obra é nova, complexa e vital”, lembraria Oscar Wilde.

A professora de arte, Waléria Nascimento (45), afirma que o movimento modernista foi importante porque trouxe novos pensamentos e concepções de arte, antes com linhas clássicas e, posteriormente, com cores fortes e vibrantes, além de trazer grande expressão cultural, econômica e religiosa.

As vanguardas evidenciaram uma herança intelectual para a cultura de hoje de forma que sem elas não haveria tanta riqueza cultural. “O modernismo transformou a arte retirando-a do patamar de pura mímese para livre expressão do imaginário do artista”, conclui a arte-educadora e artista plástica Sara Siqueira (24).

Herança e criação de Villa Lobos

Se existe alguém que colaborou efetivamente para enriquecer a cultura brasileira, essa pessoa foi Villa Lobos. Adotou uma nova estética a música clássica e inovou diante dos padrões até então existentes. A velha mania de copiar a Europa em tudo fazia da música erudita brasileira um instrumento comum. Heitor Villa Lobos rompeu barreiras e foi considerado um dos principais representantes do modernismo na música brasileira. “Ele não é só o compositor brasileiro mais influente do Brasil, mas também pode ser comparado a muitos compositores europeus, ou um dos melhores de toda a música erudita”, revela o estudante de Relações internacionais e amante da música clássica, Reinaldo Alencar (19).

O compositor conseguiu unir o popular ao erudito e o erudito ao popular. Trouxe o chorinho, o folclore, os sons da natureza e o que há de mais brasileiro a sua música. Permitiu a utilização de instrumentos não-ortodoxos para o clássico, como o saxofone. Foi um dos poucos compositores que fez música para violão, além de trazer instrumentos de percussão para suas composições.

Villa Lobos, no entanto, não teve sempre o caráter nacionalista. Sua história na música começou com muitas influências européias, como Wagner, Puccine e principalmente por Bach, passando por um período neobarroco e sendo envolvido, também, pelos impressionistas. Foi modernista e participou da “Semana de arte moderna de 1922”, conhecida pela apresentação de um novo patamar na cultura brasileira, com inovações nas artes da literatura, música,  pintura, entre outros.

Foi considerado por muitos críticos como um legítimo nacionalista, defensor do Brasil. No entanto, opiniões diversas alegam que ele guardava uma aptidão pelo brasileiro e, apenas isto. “Para mim, Villa Lobos não se encaixava em nenhum estilo, simplesmente escrevia musica”, afirma o estudante.

Recentemente, o compositor completou o cinqüentenário de morte e teve sua herança musical lembrada pela mídia, músicos e admiradores de sua arte. “Villa-Lobos talvez tenha sido o mais brasileiro dos compositores brasileiros de música clássica. Pena que brasileiros não são muito bons em lembrar de brasileiros”, afirmou a jornalista Kelly de Souza, que escreve para o blog da livraria Cultura, em desabafo ao espírito pouco convidativo para a música erudita dos brasileiros.

Uma escritora de sensações

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Virginia Woolf (1882 – 1941), famosa escritora britânica modernista, é conhecida por sua literatura impressionista, descrevendo especialmente os sentimentos e as sensações. Uma de suas marcas registradas é o uso da técnica do fluxo de consciência, criado pelo escritor irlandês, James Joyce. Consiste em transcrever embates psicológicos internos de personagens sem a utilização de pontuação. Baseia-se na transcrissão dos pensamentos dos personagens, exatamente como acontecia na consciência deles, como uma maneira de trazer a tona tudo o que se passava na cabeça das pessoas envolvidas na obra, de uma forma extremamente interiorizada. O personagem refletia sobre diversas coisas e poderia mudar de pensamento na mesma hora  sem interrupção, como vírgula ou ponto. Além disso, com essa técnica, os personagens podiam passar por uma espécia de confronto com o próprio mundo, aquilo que acreditavam, e o mundo exterior em que viviam.

Woolf participava do grupo ”Bloomsbury”, em que acadêmicos e artistas ingleses discutiam temas como arte, literatura, o novo século, liberdade, o confronto com preconceitos, opções sexuais, viagens, perdas, casamentos etc. Estes eram favoráveis ao movimento francês dos boêmios e, depois da Primeira Guerra Mundial, o grupo se posicionou contra as tradições literárias, sócias e políticas da Era Vitoriana. Entre suas obras mais famosas estão As Ondas, Flush e Mrs. Dalloway, este último bastante conhecido pelo filme As Horas, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham. Woolf também é reconhecida como defensora da causa feminista, chegou a escrever dois livros, de não ficção, a respeito do assunto: A Room of One’s Own (Um quarto próprio) e Three Guineas (Três Guinéus). Em março de 1041, tragicamente, Woolf cometeu suicídio após um colapso nervoso.

A ousadia de Duchamp

Qual o critério para que algo se torne arte? Beleza, tons, movimento, impacto, cores. Desde que Marcel Duchamp entrou para a história do modernismo do século XX, o conceito de arte mudou completamente. Sua técnica, ready-made, inovou os parâmetros artísticos da época. Diz respeito a uma manifestação em que um objeto industrializado é elevado ao valor de obra de arte, retirando as noções básicas de estilo e técnica artística. O que se questionava não era a beleza exterior do objeto como arte, mas sim o que isso representava. O exemplo mais clássico é a “Fonte”, apresentado ao Salão da Sociedade Novaiorquina de artistas independentes, em 1917. A obra era, simplesmente, um urinol assinado. O que Duchamp queria mostrar é que, um objeto visto como obra de arte tinha seu sentido modificado. Não era simplesmente um urinol, aquele objeto em um museu já não apresentaria o mesmo sentido se estivesse em outro ambiente, com intenções diferentes. “Será arte tudo o que eu disser que é arte”, afirmou certa vez o artista sobre o modo de definir e caracterizar seu estilo.

Duchamp queria chocar, no mesmo modo que implicava o movimento dadaísta. Tirar o objeto do seu habitual e transformá-lo em algo novo. “Ele tinha seu próprio estilo, inigualável, que foi libertador e fez com que a contemporaneidade assumisse a liberdade que faltava na modernidade”, afirma a arte-educadora e artista plástica Sara Siqueira (24).

A ideia entendida por ele e pelo movimento dadaísta era a de que havia necessidade do “choque” para que fosse possível inovar e transformar os conceitos referentes a arte. O artista queria, com tudo isso, criticar o modo “simplista” de ver a arte naquela época. Ele achava que a arte não deveria causar apenas uma sensação pelo visual, mas também pelo sentido e significado da obra. Não era seu estilo fazer objetos belos que causassem interesse estético.

Marcel Duchamp também tinha hobbies particulares e passou bom tempo de sua vida dedicando-se ao xadrez, jogo pelo qual era apaixonado. Nasceu em julho de 1887, na França, e veio a falecer em outubro de 1968.

Uma nova forma revolucionária

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Um dos maiores poetas russos foi Vladimir Maiakóvski (1893 – 1930). Aos 15 anos, Maiakóvski já se interessava pelo movimento revolucionário russo e ingressou no Partido Social-Democrático Operário Russo. Em 1910, entrou na Escola de Belas Artes e lá conheceu o pintor David Burliuk, com quem fez parte do grupo fundador do Cubo-Futurismo russo – vanguarda que combina o uso das formas cubistas com o dinamismo e inquietação do movimento futurista. Uma de suas criações foi a revista LEF – de Liévi Front (Frente de Esquerda) – que reunia escritores e artistas de esquerda na busca pela renovação social. Sua obra defendia ideais revolucionários e seus textos eram críticos e satíricos. Maiakóvski utilizava uma linguagem lírica, sem complicações. Além disso, suas tendências modernistas possibilitaram a abertura de um novo patamar para a arte da poesia. Ele chegou a escrever poemas comparando-se a usinas de aço, coisa que seria inimaginável em outros tempos, sendo considerado até mesmo uma ofensa à arte.

O poeta fez de seu trabalho não só um estudo para as artes, como para a política e as ideias revolucionárias da Rússia.  A forma clara na escrita, a sátira e o desejo pelo moderno fez com que Maiakóviski se tornasse  uma das maiores inflências da poesia russa. Ademais, como um dos principais participantes do movimento futurista de seu país, costumava dizer que “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. Infelizmente, suicidou-se em 1930 com um tiro.

Os tons de Stravinsky

Em junho de 1982 nasce uma das 100 personalidades que influenciaram o século XX, segundo a revista Times. O russo Igor Stravinsky foi considerado um compositor inovador no modo como “regeu” sua música. Diante as suas três fases, ele teve um período em que fazia composições para balés, outro que abordava o neoclassicismo e o período serialista.

Influenciado diretamente por Schönberg, criador do dodecafonismo – estilo que inovou as técnicas de composição na música clássica -, Stravinsky pôde,  dessa forma, contextualizar a obra revolucionária que lhe daria um nome a lista do Times. Entre suas fases de voltar ao clássico e seguir com o moderno, ele adotou a criação de Schönberg, que era uma nova forma de composição. Antes as peças eram feitas com apenas um tom. Schönberg, a partir dessa técnica, quebrou tendências. O que antes se adotava, mudou para a utilização de outros tons, tocados ao mesmo tempo. No entanto, essa técnica trouxe estranhamento ao público, que não via teor estético agradável aos ouvidos.

Muitos tons tocados ao mesmo tempo significavam tom nenhum. Essa técnica rompeu com tendências já existentes.  O compositor foi então, adepto de técnicas como o serialismo, logo ao final de sua carreira.

Além de músico virtuoso, Stravinski tinha grande interesse por literatura, ao ponto de se tornar escritor de vários livros, incluindo uma auto-biografia, Chronicles of My Life, em 1936. A música selvagem e agressiva, porém rica, conquistou ouvidos por todos os cantos do mundo. A fuga da harmonia clássica e, ao mesmo tempo, a vontade por sons que revolucionassem a visão da música erudita da época, fizeram com que Stravinski provasse  o gosto por novas experiências musicais, se aventurando em novas formas harmônicas e chocando os públicos de onde tocava. O compositor viveu até Abril de 1971, perto de completar seus 89 anos de idade.

4 minutos e 33 segundos de silêncio

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O compositor e escritor norte-americano John Milton Cage foi um dos vanguardistas de sua época. Nasceu em Los Angles em setembro de 1912 e faleceu em  agosto de 1992. Sua matéria prima e inspiração é o cotidiano, a simplicidade. Cage ficou conhecido pelo seu experimentalismo musical e por ser pioneiro na música eletrônica. Sua peça mais famosa, e pela qual ficou notável, chama-se 4’33. Criada em 1952, trata-se de uma estranha composição. A gravação consiste em quatro minutos e 33 segundos sem qualquer instrumento tocando, os únicos sons possíveis de escutar são os ruídos e barulhos da platéia e do ambiente.

John Cage era conhecido por seu estilo estranho, diferente dos outros. Sua música era chamada de “música aleatória”, no entanto, o músico a caracterizava como “música de acaso”, no qual alguns elementos musicais eram deixados de lado (ao acaso), já que o próprio compositor se deu conta de que não precisava de tais estruturas dentro de sua música. Cage levou influência a aritistas de todas as partes do mundo e deu inicio ao movimento Fluxus, que reunia músicos e artistas plásticos. Sua “estranheza” mostrou que nem sempre a virtuosidade vem a partir do clássico e tradicional, exige criatividade e inovação, ter a liberdade para criar e nutrir a própria imaginação a fim de “modernizar” a arte. O que se pode dizer sobre  John Cage, no final das contas, é que sua ousada estética musical trouxe grandes influências para a música atual.

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